Técnico brasileiro vai guiar recomeço de Orlandinho e Teliana na Espanha

Por DANIEL E. DE CASTRO

O técnico brasileiro Leo Azevedo, 41, terá a missão de guiar três compatriotas que buscam novos ares no esporte. Por meio de uma parceria da confederação brasileira com a academia BTT (Barcelona Total Tennis), ele será o responsável pelo desenvolvimento dos jovens Orlando Luz e Felipe Meligeni, ambos de 19 anos. Também conduzirá a pré-temporada de Teliana Pereira, que não atua em competições desde junho de 2017.

Um dos coordenadores técnicos da BTT, Azevedo esteve por oito anos na USTA (Associação de Tênis dos EUA). De 2003 a 2006, ele já havia trabalhado na Espanha, na academia de Juan Carlos Ferrero. No Brasil, foi técnico de Ricardo Mello, Flávio Saretta e Thomaz Bellucci.

Em entrevista à Folha, Azevedo fala sobre as necessidades de cada um dos novos pupilos e as diferenças de cultura das escolas americana e espanhola. Também conta que tenta passar sua paixão por literatura para os atletas e como foi conviver com o ex-tenista Ivan Lendl na USTA.

Leo Azevedo com alunos do projeto Ícaro
Leo Azevedo com alunos do projeto Ícaro (Arquivo pessoal)

Como surgiu a parceria com a CBT e de que forma vai funcionar a ida dos atletas para a Espanha?

Eu comecei a conversar com eles [CBT] em julho, eles estavam buscando um lugar na Espanha para ter como base. Acho que o fato de eu ser brasileiro ajudou a fazer esse meio de campo, mas eu não me meti na escolha dos jogadores. A CBT me perguntou sobre eles, e eu eu falei que, se tivesse a possibilidade, ficaria encantado de ajudá-los. A Teliana foi diferente. O empresário dela me procurou antes disso. Ela queria fazer pré-temporada na Europa neste ano e calhou de eu estar lá. Depois da pré-temporada a gente vai ver o que acontece.

O Orlandinho e o Felipe estão indo por um período de tempo determinado?

Não, estão indo para ficar. Eu vou estar com eles 95% do tempo, sou responsável por eles. Em algumas semanas talvez tenham que viajar com outro treinador, mas 95% dos dias de treino e das viagens vão ser comigo.

Vocês já planejaram o calendário do começo do ano?

Não vai ter muita opção diferente do que jogar em quadra rápida na Europa, porque não tem nada de saibro. Possivelmente a gente vai começar na Turquia.

O contrato da CBT é diretamente com você ou com a academia?

Com a academia. Eu fiz a intermediação, mas eles vão pagar a academia.

[A CBT informa que o acordo entre as partes —com confidencialidade— “contempla um desconto considerável para cinco atletas brasileiros em transição (2 fixos e 3 volantes) treinarem na academia, com cerca de 80% dos custos pagos pela CBT, incluindo neles alimentação, hospedagem e treinamento. Os critérios para a escolha dos nomes, segundo a entidade,  “são vinculados ao projeto de transição da CBT, priorizando os atletas em transição que já participam do mesmo e com o aval da academia”.]

Orlando Luz, o Orlandinho (DGW Comunicação)
Orlando Luz, o Orlandinho (DGW Comunicação)

O que você conhece sobre esses três jogadores e o que eles precisam de imediato?

Vamos começar com a Teliana, ladies first. Faz muito tempo que eu não a vejo jogar. O que eu vi: é guerreira, carne de pescoço, dá muito pouco ponto de graça. Sempre foi muito forte fisicamente, aguentou jogos longos. Ela tem que tentar, sem perder a essência, jogar um pouquinho mais agressiva. Mas isso eu vejo de fora, quando começar a trabalhar a gente vai ver quão confortável ela estará para fazer esses ajustes. Quando conversei com ela achei sensacional, estava com um brilho no olho incrível, querendo muito voltar. Ela não vai jogar saque e voleio, mas vou tentar que imponha o jogo um pouco mais.

O Orlandinho já mostrou que pode jogar bem, em algum momento ele vai voltar. É um cara com uma boa direita, tem uma leitura de jogo boa, disciplina tática. Sempre achei que é um jogador muito voltado para o saibro, e no tênis hoje não existem mais especialistas, menos ainda no saibro. De repente ele pode sacar um pouco mais agressivo, talvez consiga chegar mais à rede, saber devolver entrando. Acho importante dar armas para o jogador. Ele teve um ano difícil, não ganhou muito. Tem a parte mental de entender que foi número um do mundo juvenil, que tem jogo para estar lá na frente, mas não está.

O que eu conheço do Felipe: a bola dele anda. É uma característica difícil de ensinar. Vejo que ele é explosivo, talvez falte um pouco de ordem tática. Precisa entender o que fazer com o que ele tem, o que vem com a maturidade. Gosto muito de ordenar taticamente o jogador. Tanto ele como o Orlandinho podem crescer fisicamente. E mentalmente entender que saem de um processo em que se ganha muito mais para um em que se perde muito mais.

Eu gosto que os jogadores se vejam jogando no auge. Pedi para os três me mandarem o vídeo de um jogo quando estavam no top e me falarem o que faziam bem ali. Às vezes eles não lembram.

É como se eles fossem atrás de você com um pedido de ajuda?

Ajuda o fato de eu estar em Barcelona agora. É um fator de mudança para eles. Ter a chance de passar alguns anos na Espanha é enriquecedor, tenisticamente e culturalmente. Acho que eles me veem como alguém que pode ajudá-los a passar por essa transição, por essa tormenta, sem perder muito o rumo.

Para você também é uma motivação pessoal?

Por eu ser brasileiro existem algumas vantagens muito importantes. Bem ou não, um americano vai motivar melhor outro americano. Por melhor que alguém fale inglês, tem a barreira da língua, de como falar. Isso me motiva a fazer um bom trabalho com um brasileiro dez anos depois da última vez que trabalhei com alguém do país.

Felipe Meligeni em encontro da confederação em Florianópolis (Rafael Coelho/CBT)
Felipe Meligeni em encontro da confederação em Florianópolis
(Rafael Coelho/CBT)

Como você trabalha a formação cultural e pessoal do jogador?

Sempre achei que, quanto mais informado, maiores as chances de ser um bom jogador. Um cara que tem uma boa leitura de coisas que acontecem fora da quadra talvez tenha também dentro dela. Hoje é importante você saber falar, se relacionar com as pessoas. Às vezes você está em uma coletiva de imprensa e não sabe o que vai vir.

Tenho uma história gratificante de quando eu treinei as meninas [nos EUA] em 2011 e 2012. O grupo era a Claire Liu, a Kayla Day e a CiCi Bellis. Eu falei que no clube, em dia de jogo, não queria que elas usassem o telefone. Mas não queria que fosse algo mandatório, que eu pegasse o telefone delas, porque essa não seria a melhor forma de educar.

Propus que, quando a gente fosse para torneios, eu passaria em uma livraria e daria um livro para cada uma. E que, pelo menos em dia de jogo, elas teriam que passar a maior parte do tempo lendo em vez de ficar no telefone. A cada vez que elas acabassem de ler um, eu compraria outro, do meu dinheiro.

A maioria foi bem. E quando eu terminei de treinar a Claire, que foi com quem eu fiquei por mais tempo [cinco anos], a mãe dela disse: muito obrigada pelos torneios juvenis que ela ganhou, pelo primeiro ponto profissional, mas você não sabe a gratidão que eu tenho por ter implementado o gosto da leitura para ela.

Tem um livro muito antigo da rivalidade entre Chris Evert e Martina Navratilova. Eu comprei e dei para o treinador dela. Falei que quando ela assinasse o contrato de profissional [o que fez no ano passado], ele daria o livro para ela. Fiz uma dedicatória: “espero que no final da sua vida profissional você possa escrever um livro de uma grande rivalidade com outra grande campeã”.

Se você tivesse nas mãos um bad boy como o Nick Kyrgios, o que falaria para ele?

Acho que ele precisa entender que, se por alguns anos fizer algumas coisas que não quer, por muitos anos vai poder fazer tudo o que quer.

Claire Liu comemora vitória no qualificatório do Aberto dos EUA-2017 (Wang Ying/Xinhua)
Claire Liu comemora vitória no qualificatório do Aberto dos EUA-2017 (Wang Ying/Xinhua)

Quais as diferenças de cultura entre as escolas americana e espanhola?

Tem muito mais quadras rápidas nos EUA do que na Espanha. Na Califórnia, a quadra é gelo, não tem troca de bola. Se o moleque é mais forte, saca bem, a bola não volta. Isso não ajuda muito na formação tática. No profissional, mesmo a quadra rápida demanda mais golpes. Nos EUA acho que não tem 30 quadras do saibro verdadeiro.

O americano é muito técnico, pega o carrinho de bola e faz várias repetições. Mostra que a cabeça da raquete é 15 graus mais para cá ou para lá. Na Espanha tem mais movimento desde o começo, por isso que os espanhóis se mexem bem. Você vai ver torneio de 12 anos e o jogador já está batendo de direita em ¾ da quadra.

Mas está mudando. O [José] Higueras [ex-jogador e treinador espanhol que trabalha na USTA] está tentando usar o bom do americano, que é a mentalidade sacadora e da quadra rápida, somado ao fator espanhol de ordem tática e preparação de pontos.

Como foi conviver com o Ivan Lendl na USTA? Você costuma dizer que ele não é a pessoa fechada que aparenta ser.

Para ser justo preciso falar antes do Higueras, que me levou para lá. Ele é o cara com quem eu mais aprendi tênis até hoje, para mim é um gênio como pessoa. Ele ensina tanto sobre valores, ética, e vê o tênis de uma maneira tão simples. É como um segundo pai, e foi por causa dele que conheci o Lendl.

Quando apliquei para obter o green card eu precisava de cartas. Tinha um contato superficial com o Lendl, mas sabia que uma carta dele seria legal. Pedi para o Jay Berger, técnico dos homens, levar a carta para ele ler e assinar. Ele me disse que o Lendl nem leu, só assinou. Mais tarde, quando voltou para a USTA para trabalhar com os homens, o Lendl disse que aceitava, mas que me queria no grupo.

Aí passamos a conviver mais. Ele é completamente o contrário da imagem que passa. Super bem humorado, de uma humildade, ele tratava os meninos igual ou melhor que tratava o Murray [de quem foi treinador]. Tive muita sorte de trabalhar com ele e com o Higueras. Só o fato de ter estado com eles fez os oito anos nos EUA valerem a pena.